A importância da reabilitação visual

O sistema visual, ao nascer, possui seus órgãos formados, sob o ponto de vista anatômico. Porém, as conexões funcionais necessárias à execução das mais variadas habilidades não estão ainda desenvolvidas. Portanto, não ter a funcionalidade visual adequada durante o desenvolvimento implica em comprometer atividades básicas, e a falta de consciência destes caminhos sensoriais resulta em crianças com alteração da coordenação e desenvolvimento motor, além de problemas nas respostas cognitivas.

O aumento do desempenho visual é concomitante ao desenvolvimento e crescimento anatômico do bulbo e ao desenvolvimento do sistema visual central. O crescimento dos dendritos dos neurônios corticais e a mielinização das vias ópticas, que se iniciam na 25ª semana de gestação e prolongam-se até os nove anos de idade, justificam o desenvolvimento visual gradual ao longo desse período. O desenvolvimento das capacidades visuais ao longo dos primeiros meses de vida é uma ação coordenada que envolve aspectos sensoriais e motores, e são fundamentais para os anos sequentes.

Em condições normais, os órgãos da visão contribuem com uma grande porcentagem (alguns autores até mencionam valores como 85%) dos estímulos encaminhados ao cérebro para a realização da aprendizagem e desenvolvimento da mobilidade, p.e. Também são responsáveis pelo desenvolvimento de diferentes habilidades, especialmente conceitos de espaço e funções motoras.

Dado o nível de imaturidade do sistema visual, no momento do nascimento, a privação decorrente de alguma alteração fisiológica ou afecção visual – a deficiência visual, não permite esse sistema atingir níveis de eficiência visual. No entanto, a exposição a estímulos adequados pode alterar a taxa de maturação e, portanto, as informações do ambiente são de fundamental importância para o desenvolvimento desta via.

A visão é foco motivacional do desenvolvimento do controle de cabeça, e consequentemente adquirem habilidades motoras provindas dos sistemas táteis, sinestésico e vestibular. Além disso, o atraso causa alteração na noção espacial, de ambiente e movimento, sendo que esses conceitos de espaço são fundamentais para se conquistar a orientação e consequente mobilidade. Portanto, essa alteração de percepção do ambiente piora o desempenho, e consequente compromete o desenvolvimento global.

Considerando, então, a importância que tem a visão para o desenvolvimento global de todas as crianças, a reabilitação visual é um recurso precioso para o desenvolvimento da criança com deficiência visual – amaurose ou baixa visão. Como já sabido, sendo a deficiência visual diagnosticada precocemente, e a criança recebendo estimulação prontamente, obtêm-se melhores respostas na eficiência visual e, consequentemente, em todos os aspectos do desenvolvimento.

Assim como ocorre a maturação do sistema nervoso, o sistema visual também passa por processos que desenvolvem sua capacidade funcional – dependendo diretamente dos estímulos apresentados. A funcionalidade, portanto, é necessária para o desenvolvimento típico do córtex visual e vias ópticas. Cabe ressaltar que o desenvolvimento do sistema visual em criança com baixa visão raramente se produz de forma automática e espontânea.

Utilizando estímulos adequados, e apresentados de forma a favorecer o uso da visão residual, a reabilitação visual, também conhecida como estimulação visual pode promover maior qualidade no desempenho funcional da criança com deficiência visual.

Os recursos para que esses estímulos sejam apropriados à criança seguem informações de frequência espacial, padrões, formas, comprimentos de onda, e contrastes, p.e., que devem ser selecionadas em acordo ao desenvolvimento e percepção sensorial de cada criança.

Portanto, o desenvolvimento das habilidades visuais não é inato, e a eficiência visual pode ser melhorada através da experiência visual adequada.

A reabilitação visual é uma terapêutica diferenciada no processo de intervenção global. Os objetivos principais da intervenção são: conhecer as limitações e o comportamento visual, descobrir as potencialidades funcionais e direcionar os programas de atendimento para desenvolvimento da eficiência visual.

Profa. Dra. Marcia Caires Bestilleiro Lopes

Crefito-3/51693-F

Terapeuta Visual

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